© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
Objectivo
Construção de um lugar de habitar na forma de uma casa e de um espaço de paisagem
Localização
A propriedade onde se propõe construir este espaço de habitar exclusivo e unifamiliar localiza-se dentro do espaço do Parque Natural Sintra-Cascais, na Estrada do Rodízio e próximo da Praia Grande.
O sítio do projecto localiza-se à cota do andar basal (0-150m) da vertente setentrional da Serra de Sintra, sendo a sua geologia formada por sedimentos calci-gresosos, que originam solos pobres e consequentemente conferem à vegetação um carácter xerotermófilo.
A associação fito-climácica desta situação geográfica-ecológica é a Quercetum fagineae (QUERCO-FAGETEA), sendo o estrato arbustivo maioritariamente composto por Quercus coccifera (carrasco), Rhamnus alaternus (sanguinho das sebes), Olea europaea var sylvestris (zambujeiro) e Laurus nobilis (loureiro).
Nesta localidade, como em quase todo o espaço da Serra de Sintra, a introdução de espécies sinantrópicas (ex. Acacia sp.) e as práticas agrícolas destruiu quase na totalidade a flora autóctone.
Na sua exposição atlântica e Norte predominam os ventos nor-noroeste.
Características:.
A propriedade é um espaço com cerca de 2,4 Ha, os quais estão ocupados com uma zona de canavial denso, de matos rasteiros, de acacial e com um povoamento misto de mato e de árvores. O sistema da vegetação existente é consequente de uma evolução que resulta do abandono das práticas agrícolas e hortícolas e do envelhecimento, invasão e domínio do acacial plantado nesta paisagem durante as décadas de 1950 e 1960. A evolução deste sistema determinou a ocorrência de matos mistos constituídos por espécies normalmente associadas à associação fitoclimácica específica da localidade.
As principais espécies arbóreas existentes são a Acacia sp., o zambujeiro (Olea europea var. sylvestris), o pinheiro manso (Pinus pinea) e pontualmente na zona baixa alguns ulmeiros (Ulmus procera (?)), bem como rebentamentos de sobreiro (Quercus suber) e de carvalhiça ou cerquinho. Das espécies arbustivas destacam-se Juniperus sp., Rhamnus sp., Ulex sp., Erica Sp., Quercus coccifera, Myrtus communis e a Rosa sempervirens. As herbáceas que revestem o solo e as situações de talude são na sua generalidade a Vinca minor, a Stipa gigantea e a Brizia lagunus. Os solos são argilo-franco-arenosos e o seu índice de degradação está associado à natureza do seu uso no passado e às características da vegetação que actualmente o ocupam.
A morfologia do terreno da propriedade corresponde a um cabeço proeminente e uma encosta exposta a Noroeste e a Norte, com declive médio de 25%.
No espaço da propriedade não existem quaisquer elementos construídos notáveis, como sejam muros, sistemas de irrigação ou edificações.
Proposta:
Conceito: interpretar a evolução, a estrutura e a ocupação do espaço, configurando-lhe uma nova espacialidade.
O projecto para o espaço de paisagem da casa Carlos Alemão inscreve-se numa situação de paisagem cujo tecido se transformou, gradual e sistematicamente, com o abandono e a substituição das práticas hortícolas e agrícolas especificas desta localidade. O espaço da propriedade, com morfologia suave, contém marcas desse tipo de ocupação e estrutura, as quais são reinterpretadas para construir um espaço paisagem exclusivo.
O espaço de paisagem relaciona-se directamente com a casa e com a paisagem adjacente imediata e a grande escala, construindo um espaço de continuidade física e visual. Este espaço de paisagem é uma unidade espacial isolada dos seus limites exteriores através da plantação de uma sebe arbustiva que configura a interioridade do seu espaço e a marca na grande escala de paisagem, delimitando uma parcela em continuidade com o sistema natural e cultural.
A topologia desta paisagem caracteriza-se pela existência de três lugares estrutural e formalmente distintos:
o espaço de clareira;
o espaço da horta e pomar;
o espaço da mata.
A casa inscreve-se no espaço clareira. A clareira localiza-se no plano mais alto da propriedade e a geometria do seu espaço é determinada pela fisiografia. A clareira será o espaço de continuidade imediata entre o espaço de habitar da casa e o de habitar da paisagem. A sua espacialidade é definida pela distribuição das massas de vegetação arbustiva que se aproximam ou afastam do edifício e pela vegetação arbórea que pontua e marca pontos notáveis ou de referência. A composição definida pela distribuição das massas arbustivas e pelas árvores, isoladas ou em grupo, cria um espaço de tensão física e visual, aproximando ou afastando a profundidade dos campos visuais dentro do interior da propriedade, e dos que se estabelecem a partir do interior da propriedade com os horizontes limite distantes: o oceano e a Serra de Sintra. O plano do chão, no espaço da clareira é revestido com prados e arbustos de pequeno porte, matos rasteiros autóctones. Na clareira, sobre um terraço armado por um muro construído em pedra localiza-se a piscina. A clareira constitui-se como o primeiro e imediato espaço lúdico, simultaneamente físico e visual.
O espaço da horta e pomar é um lugar cuja geometria é definida pelo parcelamento do campo pré-existente. Este lugar isola-se no interior do espaço de paisagem através da construção e marcação dos seus limites com material vegetal (canas), recorrendo a uma linguagem que pertence à especificidade da compartimentação dos campos na localidade. Na composição desta paisagem, este espaço é simultaneamente um lugar de recreação e de produção.
A mata é um espaço lúdico de protecção. A mata que se propõe instalar nesta paisagem é uma mata mista de pinheiro manso e carvalhos, que é característica das principais formações vegetais de Portugal continental, nomeadamente da do carvalhal da zona húmida quente, encontrado também nesta localidade. A instalação desta mata, metodológica e ecologicamente, surgirá associada a um processo de gestão-regeneração da mata de acácias que domina e caracteriza o sistema de vegetação existente. No tempo e no espaço instalar-se-ão espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas que constituem uma associação fitoclimácica adaptada à ecologia do local. A introdução destas espécies possibilitará construir um sistema de protecção natural do espaço e do solo, e favorecer os processos e as dinâmicas ecológicas de auto-sustentabilidade.
A experiência do espaço da mata será estruturada por uma malha de percursos inspirada e referenciada à malha do parcelamento dos campos que estruturaram até há poucas décadas esta paisagem.
No interior da zona baixa e nascente da mata localiza-se um pavilhão construído em madeira. Este pavilhão é um espaço de habitar interior na interioridade desta paisagem, configurando uma espacialidade e experiência de eremitério únicas.
Caminhos
Os principais elementos estruturantes deste espaço de paisagem são o sistema de caminhos e os espaços.
O sistema de caminhos é determinado pela necessidade de completar e ampliar a diversidade de experiência das diferentes ambiências que constróem o lugar, pela necessidade de atravessar, manter e vigiar os sistemas naturais e construídos instalados na propriedade. Assim, os principais grupos são os de passagem-peregrinação, passagem-atravessamento, atravessamento-peregrinação, passagem-manutenção e passagem-vigilância.
O sistema de caminhos hierarquiza-se sujeito à sua utilização e funcionalidade, e à relação de estruturação e dependência na articulação que estabelece para ligar os espaços, sendo na sua maioria construídos em saibro ou através de cortes rasos dos prados que revestem a superfície.
Vegetação
A vegetação arbórea, arbustiva e herbácea que se propõe instalar nesta paisagem é constituinte do carvalhal da zona quente e húmida e a que normalmente ocorre em associação com a Quercus faginea. Assim, propõe-se instalar uma mata mista através da plantação da Quercus faginea (carvalho-cerquinho) e de Pinus Pinea (pinheiro manso) a pontuar situações de espaço especiais, a este estrato arbóreo subpõem-se diversos arbustos que constituirão os matos, nomeadamente a Olea europea var. sylvestris (zambujeiro), a Quercus coccifera (carrasco), Myrtus communis (murta), Rosa sempervirens (roseira brava). O revestimento do solo será feito através da introdução de um estrato sub-arbustivo e herbáceo, com predominância de Cytisus sp. e Erica sp. e de prados de sequeiro. O prado irrigado está previsto apenas nas áreas contíguas ao espaço da casa.
O fácies mais xerofítico (exposição ao poente e ao vento salgado) será ocupado com Olea europea var sylvestris (zambujeiro) associada ao Pinus pinea e à Quercus suber.
Morfologia
O projecto para esta paisagem não altera as condições topográficas existentes, integrando as características da morfologia na composição e estruturação espacial, não sendo efectuados trabalhos de modelação de terreno que alterem a estrutura e a forma topográfica da propriedade.
Matéria e processo
Na construção deste espaço de paisagem não são introduzidas matérias ou vocabulários dissonantes da paisagem onde se inscreve. Esta paisagem introduz apenas uma nova linguagem determinada pelo seu uso, tendo a sua composição e estrutura sido concebidas e inspiradas da especificidade de referência dos elementos sistémicos e de composição da paisagem local a grande escala.
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 04 Ottobre 2010.
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 04 Ottobre 2010.
fotografia scattata da Monica Ravazzolo
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
fotografia scattata da Yann-Fanch Valeoun
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
fotografia scattata da Yann Fanch Valeoun
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
© João Gomes da Silva _ global, arquitectura paisagista . Pubblicata il 21 Aprile 2009.
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